Arte Árabe Contemporânea

O nascimento da arte árabe contemporânea não pode ser entendido sem que se leve em conta as mutações culturais que floresceram nos dois últimos séculos. As mudanças ocorridas na esfera político-econômica do Egito no século XIX, especialmente a partir do avanço europeu sobre outras regiões do Planeta, marcado principalmente pela entrada do exército de Napoleão no Egito, seguido posteriormente pela crescente atração que diplomatas, militares e comerciantes sentiram pelo Oriente, despertaram uma intensa apreciação pela produção artística oriental.

O impacto da arte produzida na região oriental sobre a expressão cultural européia foi inevitável, e assim eclodiu no continente europeu uma moda orientalista e os adeptos do Romantismo expressam em suas obras um Oriente que reside em seu imaginário. Para canalizar este interesse dos europeus são criados novos institutos, como a Academia de Belas Artes, fundada no Cairo em 1908, de onde saiu a primeira leva de artistas árabes.

Em 1938, também no Egito, nasce o grupo conhecido como Art et Libert, o qual atuou em parceria com o francês André Breton e teve ativa participação na exposição internacional promovida pela escola surrealista européia. Neste mesmo período alguns artistas de procedência árabe promoveram, cada um em seu estilo pessoal, uma súmula da tendência ao abstracionismo contemporâneo, bem como das linguagens artísticas influenciadas pelas normas convencionais cultivadas em seus países. Destacam-se o libanês Abboud, o argelino Benanteur, o marroquino Cherkaoui e um grupo de iraquianos que criam a partir de pesquisas sobre o uso das letras do alfabeto, aproveitando seu potencial formal.

O cubismo ocidental assimila elementos da produção artística africana, inclusive das manifestações tribais, enquanto os artistas de tendências abstratas bebem nas fontes orientais. A própria caligrafia árabe é encontrada na iconografia cristã, como, por exemplo, nas obras de Gioto. Depois dos movimentos de libertação dos países árabes do jugo europeu, durante boa parte do século XX, movidos pelas engrenagens ideológicas nacionalistas, muitos artistas árabes retornaram aos seus países e geraram uma arte que traduzia o contexto sócio-cultural que dominava neste momento a região árabe. Eles buscavam uma síntese dialética de suas tradições e da influência ocidental.

Os árabes sempre cultivaram a expressão plástica abstrata, que para eles têm o poder de manifestar a grandeza do infinito através da transformação da forma em modelo. O abstracionismo está presente na arte árabe de duas maneiras – como recurso ornamental e como uma modalidade artística nacionalista. Estes artistas procuram resgatar em suas obras contemporâneas um olhar sobre as tradições culturais, gerando a partir daí renovados exercícios visuais. Este foi o primeiro período da nova produção artística dos países árabes.

Atualmente não se pode falar de um universo árabe, embora os países que o integrem cultivem uma história semelhante e a mesma língua. Sob este rótulo há uma ampla variedade de etnias e elementos culturais. É possível perceber, assim, na produção de cada país, manifestações algumas vezes até mesmo opostas, marcadas pela trajetória histórica de cada região. Suas obras não se resumem apenas à pintura e à escultura, mas também abarcam a web art, a performance, o vídeo e a collage. As mulheres também participam intensamente destes movimentos culturais, como a marroquina Chaibia.

Muitos artistas árabes movem-se alternadamente entre o abstracionismo e os elementos figurativos. Há exemplos também do uso expressivo da caligrafia árabe na produção de alguns pintores, como, por exemplo, o egípcio Ahmed Moustafa. Muito de sua arte é inspirada nos textos sacros do Alcorão. É preciso compreender, porém, que a arte árabe não se resume à produção artística islâmica. Ela não é o único recurso disponível aos artistas dos países árabes, embora esteja atualmente ainda muito ativa nesta região do Planeta.

Os novos pintores se valem de uma infinita diversidade de fontes inspiradoras, provenientes das tradições ancestrais, das primitivas manifestações pré-islâmicas às inspirações ocidentais. A sua obra tem como característica principal a vivência dos confrontos e dos constantes movimento geográficos compulsórios aos quais os árabes vem sendo submetidos, em consequência dos terríveis conflitos que avassalam hoje o Oriente Médio. Esta nova fase da iconografia árabe traz em seu estilo as marcas inevitáveis destes embates.

Fontes
Lygia Rocco – A Arte Árabe Contemporânea – Para Entender o Mundo Árabe – in Biblioteca Entre Livros – Ano 1 – Número 3 – Editora Duetto.

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